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Máquinas para respostas e humanos para perguntas: um resumo da 13ª edição do Global Risk Meeting

Com o propósito de reunir referências do mercado para debaterem o crescente uso da Inteligência Artificial e os riscos associados aos negócios, a 13ª edição do Global Risk Meeting, realizada no dia 12 de setembro, no inovaBra habitat, contou com discussões importantes sobre paradoxos entre Homem vs Tecnologia. O evento contou com a condução de Rossana Carella – neuroleader, analista comportamental e atriz, que ministrará o curso de Neuroexpressão na DARYUS Educação.

Carlos Aros – Diretor de Conteúdo da Jovem Pan News – abriu o evento com uma discussão bastante rica sobre o estouro das notícias falsas (fake news) nas redes sociais. Valendo-se da frase de Kevin Kelly, “Máquinas são para respostas; humanos são para perguntas”, o jornalista apresentou pesquisas que apontam para mudanças radicais na maneira como a informação tem se propagado na sociedade. Segundo ele, 50% dos brasileiros consomem notícias pelas redes sociais. Além disso, as fake news são 70% mais divulgadas que as reais. Os números impressionam e trazem algumas reflexões: vivemos em um grande “telefone sem fio”, no qual notícias inverídicas viralizam por seu cunho apelativo, geralmente com títulos chamativos e em tom de “revelação”. E o mais alarmante: os homens são os responsáveis por tudo isso – as máquinas são programadas para realizarem com a mais alta velocidade a reprodução de condutas negativas dos humanos, como a divulgação de notícias falsas.

Dando sequência à temática, Carlos Aros convidou Tonico Novaes – Diretor Geral da Campus Party Brasil – para o painel “O Problema dos Projetos de Inteligência Artificial”. Com alto conhecimento e experiência no meio da inovação tecnológica, Tonico também apontou para a repetição de um padrão do comportamento humano: há 200 anos, durante a Revolução Industrial, o homem debatia a perda de postos de trabalho em virtude do desenvolvimento das máquinas. Hoje nos vemos num cenário parecido, com inúmeras pesquisas apontando para altas porcentagens de desemprego vinculadas ao uso da Inteligência Artificial, especialmente nos setores mais operacionais das organizações. Entretanto, para Tonico a perspectiva deve ser diferente – enquanto máquinas irão exercer atividades maçantes e repetitivas, os homens terão mais tempo e corpo de trabalho para realizar atividades que exigem estratégia, conhecimento e, principalmente, sensibilidade. Esse talvez tenha sido o ponto de maior consenso entre os palestrantes: as emoções e a sensibilidade humana nunca poderão ser reproduzidas em sua profundidade e complexidade pelas máquinas, por mais inteligentes que elas se tornem. A IA está pronta para aprender, pronta para receber informações e replicá-las, sendo assim, os responsáveis por erros são os que a programam, os que treinam e dão subsídios para as máquinas replicarem ações desejadas. Segundo Tonico, no convívio com tantos programadores na Campus Party, ele tem percebido a importância de uma nova função: CCO – Chief of Culture Officer, profissional que foque na cultura de uma empresa, e destacou a necessidade de se ter líderes que tenham valores, que sejam espelhados pela equipe, que demonstrem o que a empresa espera de cada integrante e que os inspire para serem cada vez melhores. A essência do sucesso está, assim, nas lideranças mais humanizadas.

Abordando o uso da Inteligência Artificial sob o viés da Segurança Cibernética, tivemos Pedro Bezerra – IBM, debatendo a “Blindagem Cognitiva com Inteligência Artificial” e, em seguida, o painel “Otimização da Operação de Segurança com Serviços de IA”. Os desafios de se utilizar a Inteligência Artificial sempre a favor da Segurança da Informação foram discutidos e receberam diferentes abordagens. Para Pedro, é preciso focar nos meios de aplicar as boas práticas em Segurança da Informação nos trabalhos realizados pela IA e haver tutoria e curadoria nos projetos envolvendo IA. Essa serviria para otimizar funções repetitivas e que lidam com grandes volumes de dados – como, por exemplo, identificar o número de incidentes e alertas referentes à cibersegurança, trabalho que geralmente toma muito tempo das equipes de Segurança. Aos humanos, cabem as ações analíticas e estratégicas, o trato mais qualificado das informações já previamente filtradas e apontadas pela IA. Dessa discussão, também participaram Claudio Dodt – Grupo Edson Queiróz, Eduardo Alves – IBM, Walmir Freitas – Accenture e Anchises Moraes – Banco C6, este que também destacou a sobrecarga de alertas e a dificuldade de detecção do que de fato é importante. Para ele, a IA pode auxiliar bastante nesse ponto, executando com precisão e agilidade a triagem de ocorrências e, consequentemente, dando mais tempo para que os humanos possam identificar e tratar as demandas mais críticas. Um outro ponto bastante discutido foi o uso da Inteligência Artificial pelos hackers. Assim como diversas ferramentas criadas para a cibersegurança são utilizadas inversamente, ou seja, aplicadas para promover a criminalidade na web, a Inteligência Artificial também replicará ações criminosas. Basta ser programa para tal. Eduardo Alves citou o caso de uma IA criada para analisar o comportamento de usuários do Twitter e promover maior assertividade nos phisings realizados na rede social. Quando questionados sobre a assertividade da IA, houve consenso entre painelistas: o ser humano age segundo referências morais, éticas, comportamentais construídas por séculos (e ainda em mutação), que levarão muito tempo para serem adequadamente replicadas pelas máquinas. Para eles, tudo aquilo que exige uma análise crítica de um ser humano não deve ser colocado a cargo da Inteligência Artificial.

Numa abordagem mais voltada à aplicação da Inteligência Artificial no uso e tratamento de dados, foram realizados o painel “Tecnologia vs Humanidade: o confronto entre homem e máquina” e o talk show “O valor dos dados na Nova Economia: Preditividade e Inteligência de Negócios”. No primeiro momento, sob mediação de Hélio Cordeiro – CDO DARYUS, Dr. Santiago Shunck – SCSA Advogados e Abraão Dias (Netconn) discutiram questões éticas e jurídicas que permeiam o uso de IA nos negócios. Como apontado por Gerd Leonhard em seu livro “Technology vs. Humanity: The Coming Clash Between Man and Machine”, se os softwares podem se autotransformar e não possuem ética, a Inteligência Artificial deve trabalhar em função da moral e da ética de quem a programa. Para o Dr. Santiago Shunck, características que são apontadas como as maiores vantagens de se utilizar IA nos processos jurídicos, por exemplo, como a agilidade, não são os critérios mais valiosos para o sucesso de um processo. Para ele, a agilidade não torna um advogado mais ou menos competente, mas sua capacidade de análise de dados, seu conhecimento sobre as leis e recursos cabíveis, entre outros. Sendo assim, o uso de IA ainda é prematuro para uma série de atividades que envolvem o tratamento de dados. Além disso, não se pode ignorar nossa Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), bem como a GDPR, que estabelecem desafios complexos ao empresariado nacional e internacional no que diz respeito à proteção de dados pessoais. Atualmente, a Ordem de Advogados do Brasil (OAB) conta com uma comissão especial para discutir o lugar da inteligência Artificial no judiciário nacional. Nos resta, então, aguardar pareceres e a maturação da tecnologia para implantá-la com cautela e eficiência.

Já para Matheus Garcia – CEO Foundera e Marcia Asano – CEO – Hekima, a IA já é uma grande aliada no tratamento de dados. Os convidados abriram o talk show exibindo um vídeo sobre o caso da Kodac – uma das empresas de maior lucratividade do mundo foi do topo à falência em cerca de três anos. Isso porque não se reinventou, não conseguiu acompanhar a velocidade de transformação tecnológica e econômica, bem como inúmeras outras grandes que hoje estão fora do mercado. Estamos passando pela 4ª revolução, na qual os dados são o bem mais valioso de qualquer negócio e a Inteligência Artificial a força de trabalho mais promissora. Nessa visão, pesquisas apontam que em 20 anos, 80% dos postos de trabalho serão transformados e ocupados por IA. Marcia, destacou uma analogia interessante: os dados são o petróleo de hoje, tanto no que diz respeito ao valor, quanto ao tratamento que se dá. Ambos, se não tratados devidamente, não possuem valor algum. A executiva apontou para um case de sucesso que acompanhamos hoje: a Netflix. Segundo ela, o grande diferencial da empresa foi nascer já tendo em mente o valor dos dados de seus clientes e, sendo assim, hoje tem nas mãos o mapeamento de todo o comportamento de seus clientes – horário, dispositivo utilizado, duração, e todos as ações que realizam na plataforma. Isso proporciona à empresa dados valiosos sobre os quais desenvolve suas estratégias de trabalho. Assim como Netflix, Google e Amazon, aquelas que percebem e atuam com base nos dados dos usuários e colocam a Inteligência Artificial para atuar devidamente sobre as informações extraídas são as mais poderosas hoje.

Jeferson D’Addario – CEO DARYUS, na palestra “Análise Comportamental 4.0: riscos vs oportunidades” apresentou algumas previsões elaboradas por grandes órgãos sobre a participação da Inteligência Artificial nos negócios nos próximos anos e os impactos gerados para executivos e empreendedores. Segundo uma análise e projeção feita pelo MIT (Massachussets Institute of Technology-USA), já para 2020, 2.5 milhões de pessoas terão que se reinventar profissionalmente, uma vez que haverá a transformação em massa dos cargos e da participação humana nos mesmos. Nos Estados Unidos, por exemplo, 50% das atividades já possuem a capacidade de automação. Frente aos números, resta aos profissionais o desenvolvimento de novas habilidades – para Jeferson, um dos maiores diferenciais é se tornar conhecedor de processos de segurança, para além da agilidade. Para a IA caberia ações repetitivas que comumente são alvo de equívocos pelo excesso de informações e volume de trabalho, reduzindo os erros operacionais. Outro ponto importante apontado pelo CEO diz respeito às “migalhas digitais” – rastros que deixamos diariamente enquanto usuários assíduos da internet. Tendo em vista a “preciosidade” dos dados, a análise comportamental e o monitoramento dessas “migalhas”, tanto do público interno, quanto externo da empresa, fundamenta um dos principais fatores a se dedicar atenção hoje. Além disso, foram discutidas mais 4 dicas para 2020: 1) investimento em Security Officer Virtual (CISO Virtual); 2) Controle de acesso automatizado e com IA; 3) Blockchain como controle de governança (desde que a privacidade seja resolvida); e 4) Código/desenvolvimento dentro de todos os setores transformando-os de dentro pra fora. Além disso, Jeferson destacou a importância de se ter em vista tudo aquilo que é e deve continuar sendo de origem e execução humana, como nossas intuições, sentimentos, desejos e aquilo que deve ser realizado pela IA sob o controle humano.

As duas últimas palestras do GRM 2018 surpreenderam o público executivo. O sociólogo Fabio Mariano Borges (Insearch), trouxe reflexões importantes sobre a temática Homem vs Tecnologia com a palestra “De Blade Runner a Westworld: o humanismo da Inteligência Artificial”. Apresentando um histórico de como a sociedade reagiu à chegada de várias inovações, como a luz elétrica, a Revolução Industrial, a Internet, entre outras, demonstrou a importância de focarmos mais no uso que se faz de cada uma delas do que propriamente sua existência. Em concordância com vários participantes que falaram do assunto anteriormente, Fabio Mariano trouxe à tona assuntos “tabu” até os dias de hoje, como preconceitos de diversas formas, machismo, homofobia etc, convidando o público a pensar sobre o que temos a ensinar à Inteligência Artificial. O que ela irá reproduzir? Já Thiago Bordini – NS Prevention, que sempre marca presença nos eventos DARYUS por seu grande conhecimento em novas tecnologias e Cyber Security, narrou sua história pessoal como exemplo de superação de desafios e riscos, sensibilizando e fazendo os participantes refletirem sobre os caminhos aparentemente não lógicos e emocionais/instintos que o ser humano usa, antagonicamente, as tecnologias “inteligentes”.

Concluímos a 13ª edição desse evento, que discute sob diferentes paradigmas os riscos de negócios, gestão, problemas recorrentes e tendências fundamentais, com uma conclusão bastante humanizada: ao falarmos de Inteligência Artificial, levamos para casa o desafio de refletir sobre quem somos, como temos agido e o que vamos fazer de nosso futuro por meio da elaboração e treinamento da IA e outras tecnologias.

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